Essa semana, o caso da atleta Simone Biles, que estava a alguns saltos de se consagrar na história da ginástica mundial como maior recordista olímpica de todos os tempos, e escolheu sair da competição em favor de sua saúde mental, foi um dos grandes hot topics. A americana citou o fenômeno da perda de noção de espaço (“twisies”) para explicar, em parte, sua desistência, e questionada pelos perplexos repórteres, ela também disse: “(…) estamos todos estressados demais. Deveríamos estar aqui nos divertindo e algumas vezes esse não é o caso.”.
Para mim foi impossível ler sobre os fatos e não lembrar pelo menos um pouco do que senti quando passei pelo Burnout. Minha primeira curiosidade foi tentar entender, afinal, o que era esse fenômeno “twisies”? Basicamente ele se refere a perda de referências no ar, conhecido principalmente pelos ginastas de trampolim, ele pode ser reforçado ou ocasionado pelo estresse. Parei e pensei, realmente essa sensação não era estranha para mim, me lembrei das vezes que me senti perdida, sem referência e entendimento do que estava, exatamente, acontecendo na minha vida.
É claro que, como boa curiosa que sou, a busca não parou por aí, e fui ler e ouvir tudo o que tinha de matéria sobre o ocorrido, e nessa busca algumas abordagens me incomodaram bastante, e me fizeram refletir sobre coisas que, de alguma forma, costumo falar quando tenho a oportunidade. Esse incômodo também me gerou ação, me deu vontade de escrever sobre isso, então esse é sim meu primeiro artigo por aqui.
Ler e ouvir comentários se referindo apenas a vulnerabilidade, exposição e a coragem, da atleta, sem o acompanhamento de palavras como responsabilidade e desempenho me desceu bem quadrado, confesso. Não é de hoje que a forma como levamos o trabalho em nossas vidas é demasiadamente questionada pelas pessoas que trabalham com a saúde mental, o filósofo Byung-Chul Han é um deles. Em seu livro (que tendo a citar em 100% dos meus papos, rsrs), Sociedade do Cansaço, o autor questiona a saudabilidade e longevidade desse mindset social em que as pessoas são medidas e avaliadas através de seu desempenho, e a crescente positivação tóxica da sociedade, que anestesia e enfraquece sentimentos que realmente geram um estado de mudança.
Muitas matérias e artigos trouxeram a narrativa baseada na força do posicionamento de Biles, ou sobre o “recado” que a atleta estava passando, mas vi pouquíssimas falando sobre o que isso quer, realmente, dizer sobre os nossos ambientes e comportamentos. Afinal, são nossos comportamentos que fazem parte e alimentam nossa cultura diariamente, seja dentro do ambiente esportivo mas também fora dele, afinal, quantas instituições vocês conhecem que fazem essa relação de alta performance se inspirando em grandes fenômenos esportistas? Esse romantismo me doeu.
Até ontem comportamentos como multi tasking não só eram valorizados como influenciados dentro da nossa sociedade, pessoas com essa capacidade sempre foram aplaudidas, reforçando positivamente um comportamento basicamente primata. Essa técnica está amplamente conectada aos animais selvagens, justamente por ser indispensável para a sobrevivência. O que quero dizer aqui, na verdade, é: paremos de romantizar a auto exploração, a ausência de limites, a falta de auto cuidado e auto conhecimento. Paremos de contemplar e culpabilizar o(s) indivíduo(os) que sofre(em), falando apenas em ações de “como você pode evitar o Burnout”, e comecemos a nos responsabilizar por sermos esses agentes de mudança.
Os adoecimentos psíquicos da nossa sociedade são manifestações patológicas da liberdade paradoxal que o discurso do “só depende de você” tráz. Segundo Byung-Chul Han, existem duas formas de potência individual: a positiva – que você faz algo, vai para a ação – e a negativa – que você diz não, escolhe por não fazer. Na sociedade que vivemos hoje dizer não, impor limites, ainda soa estranho (mulheres que o digam!), agora imaginem, se continuarmos a não desenvolver a nossa potência negativa, não estaríamos dizendo sim para tudo e todos, exceto para nós mesmos? Não é meio obvio que quando dizemos apenas sim, nos direcionamos a um caminho de cansaço e esgotamento?!
Por mais conscientes que estejamos, sejamos sinceros, se entrarmos no looping do “descobri a chave da mudança, deixa comigo, EU resolvo”, estaremos apenas continuando a rodar como hamsters nessa onda de superação constante de nós mesmos, nesse desejo de sermos únicos e, super heróis e heroínas. E, para mim, é exatamente nesse ponto que a responsabilidade é nossa, é compartilhada, é de quem está no topo!
Sempre admirei não as pessoas que têm as respostas certas, mas as que sabem fazer aquelas perguntas que nos deixam com a “pulga atrás da orelha”. No exercício de me tornar cada vez mais uma pessoa assim, eu deixo alguns questionamentos para você que leu e chegou até aqui:
O que você, pessoa/líder, que está no topo da pirâmide, tem feito diariamente para evoluir? Você é capaz de reconhecer seus limites?
E sobre as pessoas que você convive, você tem realmente escutado quem está perto de você? O que essas pessoas estão falando?
Desejo com todo meu coração que a gente aprenda a se divertir mais.
