Na semana passada saiu uma matéria da minha xará, Mariana Sanches, na #BBCNewsBrasil, que fez meus dedinhos coçarem para escrever, e como já estava “devendo” um artigo falando um pouco mais sobre #SustentabilidadeHumana, achei que esse fosse o momento ideal – ou melhor, talvez não haja melhor momento do que agora. Isso porque, para além dos recordes de adoecimentos físicos, mentais e emocionais, e das crises econômicas, políticas e sanitárias, no mundo todo, ainda mais profundas no pós pandemia, nos EUA, centenas de milhares de pessoas têm se recusado a participar da força de trabalho na tentativa de forçar as empresas a melhorarem suas condições de trabalho. E esse movimento não é de hoje, a falta de trabalhadores existe há mais de 1 ano, mas as teses iniciais do porquê dessa situação no país envolviam algumas características bem específicas da pandemia, o que, na minha opinião, nos leva para uma série de teorias negacionistas a real necessidade de transformação das condições de trabalho – prolongando ainda mais a mudança na prática.
Mas também sabemos que, apesar de ser uma potência econômica mundial, os EUA se destacam como um dos países que NÃO oferecem proteções realmente básicas para a força de trabalho, tais como: direito à licença médica remunerada, direito a férias, pessoas não serem demitidas de forma injusta e arbitrária, sem aviso prévio, por exemplo – vale o reforço que o que chamo de básico, no Brasil, quem é contratado sob regime CLT, está amparado – fato que, na minha opinião, é realmente assustador e totalmente não responsivo. A persona do trabalhador é totalmente separada do ser humano, e sabemos, hoje, o quanto isso é algo totalmente ultrapassado, e nada alinhado com conceitos como o de ESG e do capitalismo consciente e sustentável. Mesmo assim, ainda vemos análises de empresas como Forbes e Goldman Sachs chamando esse momento de “a revolução dos trabalhadores” e o “Movimento Antitrabalho”, o que basicamente me confirma o quão distantes ainda estamos de entender verdadeiramente a profundidade do que estamos vivendo.
Segundo a revista Forbes, o “Movimento Antitrabalho” é um levante contra chefes ruins e empresas surdas aos seus funcionários, e as ofertas por salários mais altos já não são mais suficientes. Já o banco Goldman Sachs analisa que preferências e estilos de vida de alguns trabalhadores podem ter mudado depois de um ano e meio de pandemia, e que estamos vivendo o risco de alguns trabalhadores optarem por ficarem de fora da força de trabalho. O que o relatório do banco aponta como algo potencialmente negativo para a economia – por conta do boicote laboral das festas de fim de ano como uma forma de pressionar as empresas por mudanças no período mais rentável para elas – para Alex Colvin, professor da Universidade Cornell, pode se mostrar um ganho social muito importante, afinal vamos lembrar que o capitalismo americano serve de modelo para o mundo.
Ninguém quer ficar de fato “sem trabalhar”, não se trata de um “movimento antitrabalho”, e sim de um movimento contra condições degradantes de trabalho em todas as suas formas. Coisas bem diferentes! E isso não está ocorrendo apenas nos EUA, no Reino Unido a força de trabalho está estressada, sobrecarregada e mal paga, os britânicos trabalham as horas mais longas da Europa, os salários não acompanharam a inflação (qualquer semelhança NÃO é mera coincidência), e por aqui no Brasil, seguimos batendo recordes de país mais ansioso e estressado do mundo, perdendo apenas para o Japão, que há anos lidera o ranking de maior taxa de suicídio do mundo, e que criou esse ano um ministério específico para lidar com esse problema antigo [sem mencionar a profundidade dessa discussão se colocarmos para dentro temas como equidade, inclusão e acesso às necessidades básicas da população, no que tange o dever público].
Afinal, não era realmente a hora de questionarmos um sistema de produtividade que empurra tantas pessoas para empregos e ambientes inseguros [sociais e psicologicamente], e que não retornam aos trabalhadores no mesmo nível de dedicação e parceria que eles se doam? Como uma pessoa que estava há pouquíssimo tempo do outro lado da mesa, sinceramente não vejo o que está ocorrendo no mercado como algo inesperado. Na verdade, em 2016, o escritor Nilanjana Roy, em uma coluna do Financial Times, já havia antecipado um pouco desse movimento. Ele chamou de os “milionários do tempo” as pessoas que começaram a medir seu valor não em termos de capital financeiro apenas, mas de acordo com os segundos, minutos e horas que recuperam do emprego para lazer e recreação. “A riqueza pode trazer conforto e segurança em seu rastro”, diz Roy. “Mas gostaria que nos ensinassem a atribuir um valor tão alto ao nosso tempo quanto às nossas contas bancárias – porque como você gasta suas horas e seus dias é como você gasta sua vida.”, diz Roy.
Mas desvincular nosso valor próprio dos salários que fluem para nossas contas bancárias e dos títulos de nossos cargos nem sempre é fácil. A autoestima de muitas pessoas está ligada ao trabalho, e nossa sociedade celebra o excesso de trabalho como um sintoma de grande probidade moral – se você não está ocupado ou tentando o seu melhor, você é uma pessoa inferior de alguma forma. Como resultado, o lazer se tornou um palavrão. Todas as vezes que fugimos do trabalho, devemos ser preenchidos com rajadas eficientes de exercícios de alta intensidade ou outras atividades de melhoria, como meditação ou preparar refeições nutricionalmente balanceadas. Nossos hobbies são atividades secundárias monetizadas; tiramos férias com o propósito solene de voltar recarregados, prontos para um trabalho cada vez mais punitivo. Mais alguém aí se identificou?
Mas a boa notícia é que os apelos para acabar com a fetichização do excesso de trabalho e sua concomitante cultura de auto-otimização estão ganhando força, tanto o Reino Unido quanto os Estados Unidos têm campanhas proeminentes por uma semana de quatro dias, e na semana passada os Emirados Árabes anunciaram que vão instituir, em 2022, uma semana de quatro dias e meio de trabalho.
Eu me tornei uma “milionária do tempo” há pouco mais de dois meses, e como disse Kit Stoll, na matéria da minha xará, “tirei meu avental e saí, assustador no início, libertador depois”, mas sei do meu privilégio em poder fazer essa escolha também, e é exatamente por isso que hoje decidi atrelar meu trabalho atual a essa conscientização da evolução da nossa forma de trabalho e do nosso desenvolvimento como seres humanos integrais, principalmente dentro das empresas. Como também disse Stoll, “saber seu próprio valor e mostrá-lo para a empresa que você trabalha, é também sobre construir relacionamentos de confiança para um mundo melhor. E tenho esperanças de que possamos mudar algumas coisas”, e é exatamente por isso que “bato tanto na tecla” do autoconhecimento e da saúde mental e emocional como ferramentas extremamente potentes e necessárias.
É verdade sim que a pandemia nos fez mudar hábitos e refletir sobre nossas prioridades. Pra mim, não só ela, afinal quantos de nós [eu inclusive] já não estavam sendo sinalizados há alguns anos pela saúde física e mental que o caminho não estava correto, não é mesmo?! Mas certamente a pandemia nos virou do avesso, e nos fez questionar o que estávamos anestesiados demais para enxergar no dia a dia acelerado: afinal onde vamos parar se seguirmos nesse ritmo? Qual o preço que estamos realmente dispostos a pagar? Nossa raça humana está em um caminho sustentável para a própria existência no que tange às realidades laborais que vivemos?
Realmente acredito que as mudanças coletivas começam assim, um pequeno grupo começa a fazer uma coisa diferente da maioria, aos poucos outros adeptos vão se somando. Se o grupo cresce a um determinado ponto, o novo estilo de vida se torna padrão e o outro, ultrapassado. Esse é sim o início de uma mudança cultural de longo prazo, e essa matéria só me fortaleceu, só fortaleceu o movimento que eu e tantas outras pessoas estão fazendo por aí.
Espero que tenha feito sentido para você, deixa aqui seu comentário, compartilha, e se quiser ver a entrevista, o link está aqui: https://www.youtube.com/watch?v=icI74UlIZHI.
Beijos, e até o próximo artigo,
Mari.
